Faz semanas que eu queria escrever esse texto. Inúmeras coisas aconteceram por esses dias e só fortaleciam o quanto era importante falar sobre isso, mas eu precisava me preparar emocionalmente para abrir aqui alguns pontos da minha vida. Sei que, ao ler todo o conteúdo, você poderá se identificar e encontrar tantas coisas em comum, nessa dor que é crescer e ir para a vida que um dia recebemos de nossos pais.

Já tem muito tempo (MESMO) que senti a necessidade de exercitar meu corpo. Já treinei em  academia, já lutei Muay Thai, mas não dava continuidade a nada, portanto precisava fazer algo que eu realmente me identificasse. Mas o que, exatamente?! Confesso que dançar foi algo que passou longe de meus pensamentos por anos, tipo: ”Eu, dançar? Eu, me expor? Que coisa mais ridícula! Mimimimi.” Sempre encontrei uma desculpa para que a dança não entrasse em minha vida, mas dessa vez fiz diferente, recebi uma indicação de escola de danças e lá fui eu, na minha aula experimental.

Todas as imagens de exposição, ridículo e mimimi que eu tinha dentro de minha cabeça aconteceram de uma só vez em uma aula que durou cerca de 1 hora. O mais interessante foi que me permiti viver tudo isso, então me soltei e me permiti como nunca havia feito antes! Ao final da aula, fiz minha matricula para ballet e jazz. Uhuulll, venci na vida!

Esses dias em aula, a professora nos orientou a fazer um movimento com a perna, eu estava tentando e tentando, mas nada de acertar o passo, até que um colega me viu, percebeu meu descompasso e disse: ”Você precisa esticar bem essa perna e se equilibrar, você vai sentir dor. É para doer, viu!”

Até parecia que ele estava lendo meu inconsciente: era óbvio que eu não queria sentir dor. Queria fazer o passo sem sentir a danada da dor.

Então, foquei em me equilibrar e acertar o passo, mas fiquei com aquela frase na cabeça: ”É pra doer, viu?!”

Caminhei para casa pensando nessa frase, inclusive sobre como eu estava com medo de sentir dor ou fazer algum esforço, e por isso não esticava a perna como realmente deveria. Eu estava buscando fazer o movimento de um jeito mais fácil, até onde eu sabia que minha perna chegaria, assim iria evitar a dor. Mas no ballet não dá para evitar a dor: ou você se permite alongar e reproduzir o passo corretamente, ou não vai conseguir fazer nada.

Mas minha querida amiga, eu tenho umas viagens malucas aqui na minha cabecinha, de forma que comecei a fazer vários paralelos sobre o ballet e minha vida.

Aqui estou, no auge dos meus 32 anos de idade, corpo carregado de tensões nos ombros e costas, e vira e mexe um nó na garganta imenso, desses que a gente sente dificuldade até de engolir.

Normalmente eu sento para meditar e entrar em Theta, conversar com o Criador e mudar aquilo que está me impedindo de estar mais leve e tranquila. Só que algumas fichas vão caindo com as experiências do dia a dia, e muitas vezes com dores que eu, e a maioria esmagadora das pessoas, costumamos evitar.

Confesso de todo o coração que fiz e faço muito disso, afinal, estou escrevendo tudo isso aqui com a consciência que tenho nesse momento. Sou um ser humano em construção e expansão.

Há alguns anos, ouvi de alguém uma frase mais ou menos assim: “crescer dói, inclusive fisicamente”. Bom, você que está lendo esse texto certamente é crescidinha, já deve ter sentido dor nos joelhos quando estava crescendo, não é mesmo?!

Em todos esses devaneios sobre medo e dor, lembrei da metáfora da lagarta e da borboleta, onde um homem corta o casulo da lagarta com a intenção de facilitar o processo para o nascimento da borboleta, mas acaba matando o inseto com essa ação.

E você, o que já fez para evitar a dor?! Quantas vezes você matou um sonho? Quantas vezes você procrastinou, deixando de lado alguma atividade que era importante? Quantas vezes você permaneceu estática em algo que não gosta, mas decidiu ficar só porque era conhecido? Quantas vezes você preferiu não falar nada do que sentia para o outro?

O QUE VOCÊ JÁ PERDEU POR EVITAR A DOR?

Eu já perdi tanta coisa por causa desse medo de sentir dor. Evitei conflitos, não expus minha opinião, meu trabalho ou sentimentos. Tudo com medo de entrar em contato com aquilo que mais doía em meu intimo.

Como é a sua dor?

Quais são as memórias mais frequentes que você costuma acessar em seu dia a dia?

Como acessa emoções como raiva, tristeza e medo?

Você se sente rejeitada ou tem medo de ser?!

Como é assumir as rédeas da vida? Traz insegurança?

Sente culpa por questões que ficaram lá no passado?

Tem vergonha de quem é ou foi?

Me fiz todas essas perguntas muitas vezes. De vez em quando, repito cada uma delas para acessar algo que até então estava escondido.

De uns tempos para cá tenho me questionado sobre crescer, me tornar adulta, mulher, gente grande.  Eu acreditava que crescer era conquistar um bom patamar financeiro, comprar um imóvel, casar e ter filhos, ter uma vida sexual ativa, beber um bom vinho e viajar.

Doce engano!

A gente se ilude com tantas coisas, especialmente com a forma que encaramos a vida e a responsabilidade que deveríamos ter nela.

Foi nesse processo de crescer que descobri que nem todas as pessoas são confiáveis, que algumas pessoas entram em nossas vidas e nos colocamos em situações de perigo por não ouvirmos nossa intuição. Que pagar contas é o operacional mais fácil, se compararmos as relações humanas e como colocar limites quando necessário. Que, devido a carência, medo de rejeição ou falta de amor próprio, nos permitimos violar nossos valores e dignidade.

Passar por todos esses questionamentos e reflexões me causou muito sofrimento. Um sofrimento que poderia ser evitado se eu tivesse me conhecido melhor, se soubesse assumir as rédeas de minha vida, e mais tantos outros “se eu isso ou aquilo”.

Mas fiz tudo o que eu podia com a consciência que eu tinha.

Entrei em sofrimento porque não tinha encontrado o amor e valor em mim. Na medida em que fui me conhecendo, meditando e cuidando de meu emocional, percebi que aquela máxima: ”A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional” é realmente verdadeira.

Crescer vai doer e encarar os fatos como eles realmente são dói.

Quem disse que foi fácil entender que meus pais são o que são, que não posso mudá-los, e o que posso fazer hoje é aceitá-los? Quem disse que não doeu perceber que algumas pessoas vão nos machucar, que nem todo sorriso bonito é sinônimo de sinceridade, e que nem todos aqueles “amiguinhos” que tomam vinho contigo são de confiança?! Quem disse que foi fácil perceber que algumas pessoas vão passar por nossas vidas apenas para nos ensinar algo, que podem ir embora e deixar uma grandiosa ferida e que eu não poderei fazer nada a respeito? Quem disse que foi fácil entender que eu deveria colocar limites nas pessoas, pois eu não era um saco de lixo emocional de ninguém, e que eu não deveria fazer nada para ser aceita por ninguém?!

Entender tudo isso foi um balde de água fria. E doeu! Olha que não estou colocando tantos e tantos aprendizados aqui, pois ainda estou em processo de cura e elaboração.

Então dói, dói encarar os fatos. É mais fácil mesmo enxergar a vida com fantasia e expectativas. É mais fácil, mas não significa que é o mais gratificante. Pois quanto mais expectativas e fantasias criamos, mais flutuantes ficamos, com os pés bem longe do chão, portanto o tombo é bem maior. E esse tombo muitos vezes se chama: decepção ou frustração.

A REALIDADE!

Ela não precisa ser dura, fria e calculista. Ela é apenas um fato, que quanto visto com presença e maturidade fica mais fácil de resolver. Sim, a realidade pode doer. No primeiro momento pode ser inaceitável, mas é única. A realidade é a porta de entrada para a maturidade, para o crescimento e para o fortalecimento das pernas e coluna vertebral. Ela sustenta nossa responsabilidade! Possibilita entendermos definitivamente qual o nosso papel em toda a desordem em que nos permitimos estar.  A realidade ajuda a enfrentar os obstáculos com garra e dignidade. Ela nos permite olhar para nossos pais e antepassados e definitivamente aceitar quem são o que puderam fazer. Permite seguir para viver aquilo que temos graças a existência deles, do jeito que foram, e das atitudes e escolhas que tiveram: VIDA!

Permita-me concluir: viver pode mesmo doer, como esticar uma perna em um espacate. Mas se nos permitirmos acessar essa dor, senti-la em cada fibra de nosso corpo, respeitando cada limite e tempo que temos, o resultado é prazeroso e lindo. É curador!

A dor pode nos levar a cura, e senti-la não significa estar em sofrimento. Significa que me permiti ser humana, viva e responsável por quem sou e por minhas escolhas.

Quero sentir cada “grand batternet”, no ballet e na vida. A dor é um processo, o sofrimento é uma escolha.

Com amor, graça e leveza,

 

 

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